No post anterior, contei como pensamos o projeto-piloto Voto Acolhedor e prometi voltar depois da eleição para contar o que deu certo e o que precisa melhorar. O 1º turno passou, as equipes registraram cada atendimento num formulário anônimo, e eu passei os últimos dias olhando esses dados com calma. Aqui vai o primeiro balanço.
Os números
Foram 42 atendimentos registrados em 9 locais de votação de Cuiabá. Quatro locais concentraram a maior parte deles, cerca de três em cada quatro.
- A sala de acolhimento foi usada em 28 dos 42 atendimentos (67%). Nos demais, a escuta e a orientação da equipe resolveram sem que a sala fosse necessária.
- 30 das 42 pessoas (71%) seguiram para votar, a maioria sem precisar de nenhum apoio extra no retorno. Em apenas um registro a pessoa não conseguiu prosseguir.
- A demanda mais frequente foi emocional: ansiedade ou agitação aparece em 17 registros. Depois vêm necessidade de orientação, apoio para deslocamento, sobrecarga sensorial, dificuldade de comunicação e dificuldade com a espera na fila.
- Os recursos mais usados foram os mais simples: água (27 registros) e um assento ou espaço tranquilo (22).
É uma amostra pequena e um primeiro piloto, então não dá para tirar conclusões definitivas sobre impacto. Mas os números já mostram uma coisa com clareza: o serviço foi procurado e funcionou.
A sala virou ponto de apoio para muito mais gente
O projeto foi desenhado pensando em pessoas autistas e neurodivergentes, e elas vieram. Os registros falam de uma criança que “começou a desregular ficando extremamente nervosa”, de um pai “acompanhando o filho de 03 anos, espectro autista”, de uma pessoa autista que só precisou de acompanhamento até a seção.
Mas a sala acabou atendendo um público bem mais amplo. Vieram idosos, inclusive uma senhora de cadeira de rodas com mais de 90 anos, uma gestante, um casal surdo que precisava de orientação, mães com crianças e até um mesário que estava com dificuldade para atender os eleitores. E veio o calor de Cuiabá: em alguns registros, a equipe acolheu eleitores que passaram mal com a temperatura.
Um dos registros resume bem o espírito do dia:
“Mãe com dois filhos TDAH, pediu água e pediu para descansar um pouco. As crianças brincaram, beberam água e a mãe se acalmou.”
Também teve quem aparecesse só para conhecer. Uma estudante autista do IFMT passou pela sala “para conhecer a sala e elogiar a iniciativa”.
Quem chamou a equipe
Uma coisa que me deixou feliz: a rede funcionou. Em muitos casos, foi o próprio eleitor que procurou a equipe. Em outros, foi o coordenador de acessibilidade, familiares, mesários, presidentes de mesa ou a própria equipe, que percebeu a necessidade antes de qualquer pedido. Isso mostra que o treinamento chegou a quem estava na ponta.
O que precisa melhorar
Olhar os dados com honestidade também mostrou falhas, principalmente no próprio registro.
- A prancha de comunicação foi pouco usada. A comunicação alternativa aparece em só 2 registros. Para o 2º turno, a ideia é que as equipes ofereçam a prancha de forma ativa, em vez de esperar que alguém peça.
- O formulário precisa evoluir. Ele não registra quanto tempo a pessoa ficou na sala, faixa etária, se havia acompanhante nem se foram usados abafadores. Os nomes dos locais também foram digitados de vários jeitos, o que dá trabalho na hora de consolidar.
- O registro precisa ser feito na hora. Parte dos atendimentos foi lançada depois, a partir de anotações, o que dificulta saber os horários reais.
- O calor entra no planejamento. Água e assentos de sobra, e um fluxo combinado com as equipes de saúde para os casos de mal-estar, que não são o foco da sala mas vão acontecer.
O que vem no 2º turno
No 2º turno, em 25 de outubro, vamos usar um formulário revisado, com lista fechada de locais e salas, campos para tempo de permanência e perfil (sempre anônimo) e opções separadas para abafador e prancha. Também vamos reforçar as equipes nos horários de maior movimento, que no 1º turno foram o início da tarde e o fim da manhã.
A lei já garante a prioridade para a pessoa autista votar. O que o piloto está mostrando é que, com recursos simples (um lugar tranquilo, água, uma cadeira e gente preparada para acolher), dá para transformar esse direito em atendimento real. E isso é barato o bastante para ser replicado.
Depois do 2º turno volto aqui com o balanço completo. Se você trabalha com acessibilidade e quer trocar experiências, deixe seu comentário.
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