2026 será a primeira eleição geral em que pessoas autistas têm preferência expressa para votar, e com seis cargos em disputa, as filas tendem a ser longas. Mais cargos significam mais tempo na fila, mais barulho, mais gente no corredor. Para a maioria, é só um incômodo. Para uma pessoa autista, neurodivergente ou com hipersensibilidade sensorial, pode ser a diferença entre conseguir votar ou ir embora sem votar.
Foi a partir dessa constatação que eu pensei o projeto-piloto Voto Acolhedor. Levei a ideia à Presidência do Tribunal Regional Eleitoral de Mato Grosso, que a abraçou, e hoje conduzo o projeto pela área de sustentabilidade e acessibilidade. A pergunta que me moveu foi simples: se a lei garante a preferência, quem vai garantir que essa pessoa consiga, de fato, atravessar o dia da votação?
O problema que quase ninguém vê
Muitas deficiências não são aparentes. Uma pessoa pode estar entrando em sobrecarga sensorial na fila sem que ninguém ao redor perceba. Quando isso acontece, sem preparo, as reações costumam piorar a situação: abordagens invasivas, pedido de laudo, discussão na fila por causa da prioridade, exposição da pessoa diante de todos.
A lei já garante o direito. A Lei Berenice Piana reconhece a pessoa autista como pessoa com deficiência, a Lei Brasileira de Inclusão assegura acessibilidade, e a Justiça Eleitoral tem normas próprias sobre o tema. O que faltava era preparo prático para transformar esse direito em atendimento no dia da eleição.
A virada: ouvir antes de desenhar
A primeira versão do projeto era outra. Pensei em salas para crianças autistas, com brinquedos e dispositivos de interação, onde elas pudessem ficar enquanto a família votava.
Antes de seguir, fomos conversar com a associação de mães atípicas. E a resposta mudou tudo. Segundo a presidente da associação, cerca de 70% das mães eram solteiras, e elas não queriam deixar o filho com ninguém. Queriam exercer o direito à preferência e votar junto com a criança.
Foi a lição mais importante do projeto até aqui. A gente desenha soluções a partir do que imagina ser a necessidade do outro, e às vezes erra o alvo por completo. Ouvir quem vive a realidade antes de executar poupou recursos e, principalmente, evitou que criássemos um serviço que ninguém ia usar. O foco passou a ser garantir que mãe e filho atravessem juntos, e com dignidade, o dia da votação. A própria norma ajuda: a preferência para votar se estende ao acompanhante.
Duas frentes: gente preparada e um lugar para respirar
O projeto se apoia em duas ideias simples.
A primeira é preparar quem atende. Produzimos um vídeo curto de capacitação e o levamos aos coordenadores de acessibilidade dos locais de votação de Cuiabá, que são a ponte entre a Justiça Eleitoral e as mesas no dia da eleição. O vídeo circulou por WhatsApp, onde pode ser assistido e reassistido no celular a qualquer momento, e foi exibido nos treinamentos presenciais, onde virava ponto de partida para tirar dúvidas.
A segunda é oferecer salas de acolhimento sensorial em locais de votação selecionados de Cuiabá: um espaço com iluminação suave, abafadores de ruído, assento confortável e água, onde a pessoa pode se reorganizar e voltar a votar quando estiver pronta. O uso é sempre voluntário e temporário. A sala não segrega, não é posto de saúde e não exige diagnóstico.
A prancha de comunicação
Nem toda pessoa consegue, num momento de sobrecarga, dizer o que precisa. Por isso cada sala conta com uma prancha de comunicação aumentativa: uma folha A4 com cartões simples para a pessoa apenas apontar.
Os cartões dizem: “Quero voltar para a fila de votação”, “Quero ir ao banheiro”, “Preciso de água”, “Preciso do abafador de ruído”, “Quero ficar só”, “Preciso de ajuda”, além de “Sim” e “Não”. Eles são organizados em quatro grupos: votação, necessidades, bem-estar sensorial, e respostas e ajuda.
É um recurso barato e simples, e devolve à pessoa algo essencial: a possibilidade de decidir e comunicar por conta própria. A prancha está disponível para download no fim deste post, e qualquer local de votação ou serviço público pode imprimir e usar.
O que a equipe faz, e o que ela não faz
Uma das partes de que mais gosto do projeto é a clareza dos limites. A equipe de acolhimento atende ao chamado da mesa, media com calma, acolhe, oferece o espaço tranquilo e acompanha o retorno à votação.
E não faz: não decide pelo eleitor, não substitui o mesário, não pergunta diagnóstico, não toca sem autorização e não expõe a condição de ninguém.
A frase que resume o treinamento é esta:
“Eu não preciso saber o diagnóstico. Preciso saber acolher.”
O que vem depois
Por ser um piloto, o plano é medir com cuidado (sempre com dados anônimos): quantas salas funcionaram, quantas pessoas foram acolhidas, o que a equipe percebeu, o que precisa mudar. Se der certo, o modelo pode ser replicado em outras zonas e municípios de Mato Grosso.
No dia da eleição, vou acompanhar de perto o funcionamento das salas e o trabalho das equipes. Depois volto aqui para contar o que deu certo, o que precisa melhorar e o que ouvimos das famílias. Se você trabalha com acessibilidade, em qualquer área, e quer trocar experiências, deixe seu comentário.
Materiais do projeto
- Vídeo de capacitação para mesários e coordenadores (acima)
- Prancha de comunicação aumentativa (PDF para imprimir)
- Apresentação do treinamento da equipe de acolhimento (PDF)

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